Já sou conhecida nos mercados onde compro por uma atitude no mínimo estranha
para as moças dos caixas e os garotos das sacolas: não pego sacolinhas de plástico.
Difícil
é passar as compras, pagar, brecar o ensacolador que geralmente esconde minhas
coisas furiosamente em dezenas de saquinhos enquanto eu pago e ainda explicar,
ao mesmo tempo, o porquê da recusa aos sacos. Aos poucos, prá sair dessa
sinuca diária, criei várias personagens e visto uma delas enquanto visito as gôndolas.
A decisão por uma ou outra depende do tamanho da fila, do tamanho da grana, do
tamanho da compra, e, é claro, do fígado...
A
didática educada com pressa:
“Sabe, um saquinho desses dura 50 anos e eu já tenho vários em
casa. Precisamos com urgência produzir menos lixo.
Obrigada”.
A
esquisita: “Sabe,
plástico é feito de petróleo que é o resultado da decomposição de
florestas e dinossauros. Como os átomos não se desintegram espontaneamente,
com certeza há nessas sacolinhas átomos de samambaias gigantes ou
brontossauros. Não é uma judiação?” (Essa faz sucesso quando a fila
está grande. Uma vez um cara de Piracicaba pegou o gancho e disparou um
discurso que não parava nunca mais...)
A
compadecida
social: “Sabe,
é que se eu colocar meu lixo e meus recicláveis nessas sacolinhas todas
brancas e todas iguais, os coletores de lixo e de recicláveis* vão fazer a
maior confusão. COITADOS!!! E o
pessoal da cooperativa precisa muito
(dou ênfase!) dos meus recicláveis para pagar aluguel, comprar
material da escola dos filhos, pagar a conta de luz... Sabe, gosto de
facilitar o trabalho dos coletores. Uso sacos grandes transparentes para os
recicláveis e pretos para o lixo. É
meu Fome Zero! “ (Essa tem provocado sorrisos simpáticos!)
A
consumidora
exigente: “Sabe, uma sacolinha dessas custa cerca de
cinco centavos. Seu patrão - todos odeiam o patrão! - me empurra um monte
delas, embute no preço e eu termino pagando pelo que não quero. Já não basta
o preço das coisas? (Às vezes me empolgo nessa parte) “Nós compramos
sem saber, e isso não é justo. E blá, blá, blá... Não é?”
Se
o mercado tem impresso o nome no danado do saco a coisa pode virar comício. “Eu
me recuso a sair fazendo propaganda do seu patrão de graça. Quem ele pensa
que é? O quê ele pensa que sou?”
A
fashion:
“Euuuu? Sair com um monte de sacolinhas penduradas nos dedos? Cruzes! Acho
um horror, uma po-bre-za!”
A
chique: “Na
Suíça e na Alemanha ninguém pega saquinho. Argh...”
A
eco-socio-terrorista
(para essa eu preciso estar com tempo livre): “Você
tem filhos? Sabe, a gente desperdiça tanta coisa, né? Já imaginou como vai
estar o planeta quando seu filho estiver maior? A gente não pára de fazer
lixo! Sabia que cada um de nós
produz, em média, 1 kg de lixo por dia? Sabia que hoje são 6 bilhões de
pessoas no planeta fazendo lixo o tempo todo? Todos os dias?
Olha aqui, ó, tá vendo essa
embalagem? Quando seu filho estiver beeeeem velhinho ela ainda vai existir desse
mesmo jeito. O planeta vai estar um
lixo só! Coitado. Do planeta e do seu filho...”
De uns tempos para cá ando pedindo descontos por não pegar as sacolas. Já consegui alguns.
* A cidade em questão (São Sebastião, SP) tem um programa municipal de coleta seletiva em parceria com uma cooperativa de triadores de materiais recicláveis.
Georgeta
de Oliveira Gonçalves
Educadora
Ambiental
Jornal Imprensa Livre (Litoral Norte de São Paulo)