Os Catadores e a Educação Ambiental
Encontros e reuniões de cooperativas de catadores têm dedicado bastante atenção aos aspectos organizativos, econômicos e jurídicos do trabalho. Têm focado também as questões operacionais relativas à triagem e comercialização de recicláveis. Neste encontro internacional de cooperativas realizado em São Sebastião, tanto catadores quanto técnicos afirmaram que dentre as dificuldades encontradas no desenvolvimento das atividades está a falta de “apoio da sociedade”, de “conscientização do povo” ou de “educação ambiental”.
O que vem a ser esta educação ambiental (EA)?
O
processo de educação, seja ele “ambiental” ou não, centrado na questão
dos resíduos ou não, envolve basicamente dois aspectos: os cognitivos e os afetivos.
Os aspectos cognitivos estão ligados à aquisição de conceitos, conhecimentos ou conteúdo. Costumam ser privilegiados nos trabalhos de EA pois é comum as pessoas acharem que “o povo está desinformado”. As campanhas de conscientização, por exemplo, através de impressos, cursos, palestras, dados diversos, estatísticas e orientações práticas, procuram preencher esta falta de conhecimento.
Ainda percebe-se, entretanto, pela observação de práticas dentro das próprias cooperativas, que alguns conceitos (como minimização de resíduos, poluição, resíduos perigosos, compostagem, etc.) mereceriam ser melhor esclarecidos. Seguem alguns exemplos no box.
Mas será que a informação basta para educar as pessoas? Em outras palavras, o conhecimento garante uma mudança efetiva e duradoura de comportamento? Analisem os seguintes casos:
1.
Durante a palestra de um catador cooperado, sobre a importância da coleta
seletiva, perguntaram a ele se separava materiais em sua casa, já que possuía
condução própria para ir à cooperativa. Ele respondeu: “jogo os materiais
no lixo, pois nunca tinha pensado nisso!?”
2.
Um jovem, parente de um catador cooperado, e bastante envolvido com a discussão
do lixo, pois recicla papel artesanalmente numa cooperativa, ao ser perguntado
se não traria recicláveis diariamente da sua casa, respondeu: ”impossível;
o que vão dizer de mim, carregando lixo na mochila?”
3. Exemplo clássico: os fumantes, em geral, apesar de todas as advertências e avisos do Ministério da Saúde, conscientes e informados de que fumar é extremamente prejudicial à saúde... continuam fumando.
Afinal,
o que falta para educar estas pessoas? Bons e fortes motivos para que mudem de
atitude. E esta motivação não vem só de saber se uma prática é correta ou
incorreta, melhor ou pior. A motivação envolve o aprofundamento de questões
como vontade, desejo, interesse, enfim, de aspectos totalmente subjetivos, ou afetivos
(na linguagem dos educadores). É sabido que as transformações no nosso
comportamento humano, complexo e único, dependem da mudança de sentimentos.
E de valores. Precisamos, acima de tudo, sensibilizar
as pessoas.
Como uma cooperativa de catadores pode, então, desenvolver um trabalho de EA? Algumas dicas:
1)
Capacitando-se
Todos
os cooperados deveriam participar de atividades de EA voltadas, em primeiro
lugar, para o próprio ambiente de trabalho. Cada cooperativa poderia ter um
grupo responsável pela discussão de EA, recolhendo e organizando material para
leitura e consulta, convidando técnicos para a promoção de atividades temáticas,
planejando visitas a locais de interesse, como outras experiências relativas à
minimização de resíduos, por exemplo. É importante que esta capacitação não
seja entendida como um simples treinamento. Os cooperados aprenderão melhor quanto mais sentirem a
discussão “na pele”. Idealmente, deveria contar com a supervisão de um técnico
ou pessoas com perfil de educador. Um trabalho de capacitação nestes moldes
foi desenvolvido pela cooperativa de catadores do município de Poá[2],
junto aos jovens parentes dos cooperados. (Veja
relato a seguir.)
2)
Dando o bom exemplo
Espera-se
que a capacitação citada acima tenha como resultado a motivação dos
cooperados para trabalhar o ambiente interno, ou seja, zelar pelas
instalações da cooperativa, acondicionar adequadamente os materiais (afim de não
propiciar a criação de vetores), não queimar lixo, rever o desperdício e,
dentro do possível, separar os recicláveis gerados em seus próprios domicílios.
3)
Criando um programa de EA para
a comunidade
Ao invés de uma campanha, com resultados efêmeros, este programa poderá ser construído coletivamente nas cooperativas. Deverá contemplar os aspectos cognitivos (que conteúdo será apresentado?) e afetivos (que linguagem, enfoque, etc. serão usados?) da discussão sobre resíduos.
Uma
sugestão é que as atividades educativas externas privilegiem conversas com as
pessoas, tanto nos domicílios quanto em estabelecimentos comerciais e instituições.
Pode ser criado, também, um sistema de visitação da cooperativa pela população,
e uma feira periódica para venda de objetos reutilizáveis, recuperáveis,
etc., atividades estas que fortalecem uma relação mais “afetiva” entre a
cooperativa e a comunidade.
Quanto aos folhetos educativos, em algumas cooperativas são produzidos em grandes quantidades devido ao apoio de patrocinadores. Às vezes contêm excesso de informações, são “poluídos” visualmente, repetitivos – uns são cópias de outros - confundem termos e, em certos casos, são enganosos. Num deles, por exemplo, a ilustração dá a idéia de que a cooperativa citada possui uma esteira rolante para triagem dos materiais. Neste caso, o que acontece quando uma pessoa interessada lê o folheto e resolve visitar a cooperativa? A confecção e distribuição destes folhetos e demais impressos merecem maiores cuidados.
Para
além dos óbvios benefícios educativos, de saúde pública e ambientais, o
trabalho de Educação Ambiental nas cooperativas tem importância econômica.
Uma comunidade educada separará mais e melhor os materiais de interesse da
cooperativa. Compartilhará, com esta, dos esforços de triagem, lavagem e até
pré-beneficiamento (quando as pessoas amassam latas ou desmontam caixas, por
exemplo) nas próprias fontes geradoras, diminuindo o rejeito nas cooperativas e
aumentando o rendimento do trabalho.
E mais que isso: ao manter um diálogo permanente com a população, através de atividades de Educação Ambiental, a cooperativa estará valorizando seu espaço, que passará a ser visto como pertencendo à própria comunidade. Isso fortalecerá sua imagem como prestadora de um serviço de utilidade pública, social e ambiental, voltado à construção de uma sociedade mais solidária e sustentável.
Minimização
de resíduos
A coleta seletiva, atividade prioritária da cooperativa, apresentada como contribuição “para diminuir o lixo que vai para os aterros”, poderia ser melhor contextualizada dentro de uma proposta de minimização de resíduos. Pautada no princípio dos 3 Rs – redução no desperdício, reutilização de produtos e reciclagem de materiais – conforme as diretrizes de inúmeros documentos internacionais de cunho ambiental, como a Agenda 21, a minimização propõe, (eco)logicamente, que se evite a produção de resíduos ao invés de apenas reciclá-los após seu descarte. Embora seja sempre apresentada como tendo menor impacto ambiental que o processo de produção original de cada material (poupando árvores, minérios, petróleo, etc), a reciclagem, como qualquer atividade industrial, também consome água e energia, polui o ambiente e gera seus próprios resíduos.
Trabalhar este conceito, em detrimento da promoção de campanhas para “arrecadar” recicláveis, poderia reverter eventuais distorções de que “quanto mais lixo, melhor”. Mesmo que a população reduza o descarte de materiais, é claro que não faltarão recicláveis para as cooperativas.
Resgatar
a noção de desperdício na discussão sobre minimização de resíduos também
pode estimular uma reflexão em torno do consumo de materiais dentro das próprias
cooperativas, desde material de escritório, impressos e até alimentos. Não
é incomum observar-se, em algumas cooperativas, o uso de copos descartáveis
e um excesso de sobras de comida nos pratos após as refeições.
Poluição
atmosférica
Para eliminar rejeitos de triagem ou para beneficiar certos materiais (fios de cobre, por exemplo) alguns resíduos são queimados nas cooperativas. Esta prática polui o ar e é considerada ilegal em muitos municípios e estados. Queimar objetos de PVC (como algumas garrafas plásticas de água mineral), por exemplo, libera substâncias dentre as mais cancerígenas do planeta. E não custa lembrar: além de zelar pela qualidade do ar da vizinhança (pois a fumaça não some), não queimar resíduos resguarda a saúde direta dos cooperados. Dá um pouco mais trabalho ensacar o rejeito resultante da triagem e destiná-lo à coleta regular pelo poder público. E desencapar, manualmente, fios de cobre. Mas o ambiente e a imagem da cooperativa agradecem.
Resíduos
perigosos
Conhecer melhor os riscos de certos resíduos, como lâmpadas fluorescentes e papéis sanitários, poderiam preservar ainda mais o ambiente. Estas lâmpadas, ao serem quebradas para a redução de volume ou separação do alumínio, liberam vapor de mercúrio. Inalado, este pode provocar danos graves à saúde humana, de distúrbios nervosos até morte. Aceitar a doação destes resíduos, como a de papel higiênico (usado!), só reforça a idéia frequente de que os catadores são, na realidade, lixeiros. Evitar a recepção destes, por outro lado, contribui para diminuir o preconceito de que uma cooperativa de triagem é um lugar perigoso, sujo e insalubre. A coleta e tratamento de resíduos perigosos merecem maior atenção do poder público, em todas as esferas, e investimento por parte das próprias indústrias que os geram.
Doenças
associadas ao lixo
Embora o tema já seja explorado em atividades de educação sanitária, através de vários veículos de comunicação, escola, etc., não são incomuns, dentro de cooperativas, montes de latas, pneus ou frascos diversos acumulando água de chuva e criando larvas de pernilongos. Sem falar das ótimas condições que às vezes se criam para ratos e baratas. A gravidade e implicações do mau acondicionamento dos recicláveis para a saúde pública precisariam ser melhor discutidas.
Compostagem
Discussões teóricas e práticas sobre compostagem (processo aeróbico e controlado de estabilização de resíduos orgânicos) ampliam a visualização do potencial de reaproveitamento dos resíduos – normalmente valorizamos só os recicláveis. A produção rotineira do composto orgânico, inclusive, pode vir a ser outra fonte de renda para a cooperativa. Experiência-piloto neste sentido vem sendo desenvolvida pela pré-organização cooperativista Recicla Ação[2], no bairro da Vila Albertina, capital de São Paulo. Vêm sendo compostados no local as sobras das próprias refeições dos cooperados e material orgânico doado por sacolões da região.
BLAUTH. P. R. & JUNQUEIRA, V. 2001
Documentação do Primeiro Encontro Internacional de Catadores e Triadores de Resíduos Sólidos. São Sebastião, SP, 23-26/9/2000. Deutsche Geselschaft fur Technische Zusammenarbeit-GTZ, 156p.
[1]
A CRUMA foi convidada mas não pode participar do encontro em São Sebastião.
Contatos podem ser feitos com Roberto pelo fone (11) 4636.7738.
[2] A entidade não esteve representada no encontro em São Sebastião por estar em processo de capacitação e estruturação. Mas contatos podem ser feitos com Eva, Viviane ou Abel pelo fone (11) 6265.6386.