Consultora propõe a minimização do lixo
Carolina
Carola – da reportagem local
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Que o lixo precisa ser reciclado, todo mundo já sabe. Mas o que poucos
sabem é que a reciclagem também gera poluição e lixo e, portanto, deve
ser evitada. Como? Reduzindo a quantidade de lixo. Diminuir a produção de lixo é a proposta defendida pela consultora ambiental Patricia Blauth, 40, que trabalha nessa área há 15 anos. Segundo Blauth, isso é relativamente simples: basta olhar para o lixo produzido e verificar o que poderia não estar ali. Guardanapos de papel são um exemplo, pois podem ser substituídos por modelos de tecido. A redução pode ser feita também em escala maior. Em uma rede bancária, a consultora propôs a troca de copos descartáveis usados pelos funcionários por canecas duráveis, pessoais, o que pode evitar o descarte de 24 mil copos por dia só num dos prédios. Já no bar Zatar (SP), ela implantou um programa que minimizou em até 50% a produção de lixo. Uma das ações foi substituir os sachês individuais de temperos (açúcar, sal, molhos) por frascos laváveis e reutilizáveis. Leia a entrevista abaixo. |
Quem é elaNome:
Patricia Blauth Idade:
40 anos O
que faz: é bióloga,
especialista em educação ambiental e consultora ambiental na área de
resíduos Filosofia de vida: Não dá mais para pensar em dar sumiço às coisas: temos que valorizá-las. O trabalho é construir esse sentimento com as pessoas, de que tudo é muito precioso. Teremos que ser mais sábios” |
“A reciclagem tem legitimado o desperdício. Em escolas, temos de desconstruir os programas que se baseiam em gincanas de quanto mais reciclável, melhor. A idéia deve ser: quanto menos lixo, melhor”
Folha
– As pessoas estão mais conscientes do problema do lixo?
Patricia
Blauth – O enfoque de
muitos programas tem sido a reciclagem, e nossa equipe de consultores trabalha
com minimização. Mas por meio de um programa de coleta seletiva, a
pessoa começa a perceber a
quantidade de resíduos e pode passar a repensar suas opções de consumo.
Observo que as pessoas estão cada vez mais receptivas a essa discussão. E
quando realmente sensibilizamos uma pessoa, ela não consegue mais ver o lixo da
mesma forma.
Folha
– A quanto pode chegar a minimização do lixo?
Blauth
– Há lugares em que diminuímos o lixo para um décimo, com um trabalho
pautado nos três erres. Primeiro, a redução do uso, do consumo e do desperdício.
Se há um material que não dá para reciclar – uma embalagem por exemplo –
ou um utensílio supérfluo, tento cortá-lo da minha lista de compras e
substituí-lo. Segundo, a reutilização e, por último, a reciclagem. Quando
falamos em minimizar não é algo simbólico, dá para minimizar bastante.
Folha
– É possível obter os mesmo resultados em casa e no escritório?
Blauth
– O princípio dos três erres serve para qualquer ambiente, e até mesmo para
resíduos complicados, como os de saúde. Na minha casa, eu começaria fazendo
um diagnóstico do meu lixo. Filtro de papel: preciso mesmo disso? Então troco
pelo coador de pano. Bandeja de isopor: posso encontrar os produtos sem a
bandeja. Comida: comprei demais, errei no cálculo? Essa é a lógica, ver item
por item. No fundo, é um exercício de ser mais responsável, um movimento em
busca de opções mais sadias e sustentáveis.
Folha
– Mas o estilo atual de vida não incentiva a redução, não é?
Blauth
– Infelizmente, não. Para eu reduzir meu lixo, tenho de rever meu estilo de
consumo, e a propaganda, dentro outros fatores, me empurra para consumir. A redução
depende muito de uma leitura crítica dessa propaganda, dos “avanços”
tecnológicos”, do conceito de praticidade, modernidade e progresso. E também
depende de nossos laços comunitários, meio enfraquecidos nas grandes cidades.
O lixo acaba sendo um reflexo de um padrão individualista, de famílias
menores. Precisamos, neste sentido, incentivar novas relações sociais e
interpessoais, baseadas na cooperação e na solidariedade. A competição na
escola, portanto, mesmo em atividades de “educação ambiental”, é mais uma
estratégia que enfraquece esses laços afetivos e contribui para o
individualismo, o isolamento, a carência, o consumo.
Folha
– Educar as pessoas é difícil?
Blauth
– Educação é um interessantíssimo desafio. Eu, que trabalho nisso há 15
anos, acho que falta discutir mais o distância entre a consciência e a ação.
Não adianta só informarmos, palestrarmos, concientizarmos. Precisamos motivar
as pessoas através de projetos educativos melhor elaborados em termos metodológicos.
Folha
– As pessoas erram quando separam o lixo?
Blauth
– Muito. Para simplificar, algumas cartilhas, folhetos e programas pedem para
separar o lixo seco do úmido. Isso é um equívoco! Entre os resíduos
secos, há muita coisa não-reciclável, como o isopor, couro, tecidos, cerâmica,
celofane, etc. (O isopor não é reciclável comercialmente no Brasil.) Daí as
pessoas separam um monte de coisas não recicláveis, que vão ser descartadas
como lixo nas centrais de triagem ou cooperativas de catadores. A simplificação
tem confundido as pessoas, e elas se frustram. A questão não é facilitar e
tornar a coisa tão banal que seja malfeita. Precisamos, novamente,
profissionalizar um pouco o trabalho educativo.
Folha
– Seguras de que um material é reciclável, as pessoas não aumentam seu
consumo?
Blauth
– Certamente a reciclagem tem legitimado o desperdício. Em escolas, temos de
desconstruir os programas que se baseiam na gincana de quanto mais reciclável,
melhor. A idéia é quanto menos lixo, melhor. Em certas escolas as crianças
chegam a convencer os pais a não comprarem cerveja em garrafa de vidro, retornável,
para comprar uma lata descartável. Daí as pessoas geram lixo de propósito em
nome da reciclagem, da preservação ambiental.
Folha – O símbolo nas embalagens é garantia de que o material é reciclável?
Não,
isso ainda não está normatizado no Brasil, e as empresas usam isso como
marketing ecológico. É propaganda enganosa. Tanto que até em bandejas de
isopor está lá o símbolo das três setinhas em relevo. Tudo bem, o isopor é
reciclável. Mas onde, lá no Japão? Aqui, ninguém aceita. Esse símbolo
deveria ser usado onde o material fosse comercialmente reciclável, onde as
empresas fossem mais honestas com seus consumidores e mais preocupadas com a
sustentabilidade ambiental e a responsabilidade social.
Folha de São Paulo, Folha Equilíbrio, 31/07/2003