Reciclável? Até que ponto?
A valorização da reciclagem de resíduos no Brasil levou algumas indústrias a inserirem símbolos que sugerem a reciclabilidade dos materiais em seus produtos e embalagens. As associações setoriais de vidro, plástico, papel/papelão, alumínio e aço desenvolveram símbolos padronizados para cada material, em parceria com o CEMPRE – Compromisso Empresarial para Reciclagem, entidade voltada para o incentivo da reciclagem no país.
Este código facilitaria a identificação e separação dos materiais para reciclagem, ajudando "a criar uma consciência ecológica nas pessoas, ao passarem a conviver com esses símbolos padronizados". Os símbolos se tornaram cada vez mais presentes em embalagens, apontadas como um problema nos programas de gestão de resíduos sólidos, por representarem, em média, 33% do peso total do lixo nas cidades. A intenção era de que os símbolos não fossem "armas de venda" ou promocionais e nem uma garantia de "que o referido produto seja ecológico ou mais reciclável que o do concorrente".
Isso não é, porém, o que vem ocorrendo. Valendo-se da inexistência de programas de orientação ao consumidor, as indústrias se utilizam destes símbolos com caráter fortemente mercadológico, contribuindo para uma "consciência" ecológica baseada em alguns mitos...
O
mito da reciclagem garantida
Os
símbolos apenas indicam que os materiais são potencialmente
(e tecnicamente) recicláveis e não que serão
efetivamente reciclados, o que
depende do mercado para cada material. No Brasil ninguém pode estar seguro de
que os recicláveis serão reciclados.
O que fazer, por exemplo, com uma caixa de hambúrguer, identificada como reciclável, numa lanchonete que não dispõe de lixeiras para um descarte diferenciado? Ou numa cidade em que não há coleta seletiva de lixo (pelo poder público, catadores, entidades, etc.), nem sucateiros, nem indústrias de reciclagem próximas?
Adianta uma escola fazer campanha para arrecadar materiais recicláveis se não há quem os aceite? Até doações de recicláveis são muitas vezes recusadas por cooperativas de catadores, entidades e sucateiros: o valor de venda destes materiais não compensa o custo da retirada. Há casos, ainda, em que a indicação reciclável aparece numa embalagem, o consumidor interessado telefona para o serviço de atendimento ao cliente da referida indústria, para ser informado que o material é reciclável, sim... na Europa!
Na
Holanda, por exemplo, a rotulagem tem maior credibilidade, e os símbolos só
podem ser usados se houver coleta e destinação disponíveis para o público
"alvo" destes símbolos. Já o sistema de codificação adotado para os plásticos
no Canadá alerta que o símbolo "não
é uma garantia enunciada ou implícita
de que qualquer recipiente é próprio para ser transformado em outro produto".
É
bom ressaltar que a reciclagem de qualquer material é um processo industrial
que envolve infra-estrutura específica e uma série de fatores, especialmente
de ordem econômica. E ainda não existe um compromisso, por força de lei, de
as indústrias brasileiras coletarem ou apoiarem iniciativas de coleta e
reprocessarem os materiais que produzem. Pelo contrário, muitas de nossas indústrias
não se vêem como responsáveis pelo impacto ambiental de seus produtos.
O
mito da reciclagem infinita
Os símbolos sugerem um ciclo fechado, perfeito, como se uma caixa de papelão descartada, por exemplo, pudesse se transformar em outra, e esta em outra, eternamente. Num dado momento deste processo, celulose "virgem" (cuja extração envolve novas árvores, solo, água e energia) terá de ser adicionada às fibras recicladas.
O ciclo fechado é especialmente inadequado no caso dos plásticos. Uma garrafa descartável de refrigerante ou de água, por exemplo, não será reciclada e transformada exatamente em outra, mas sim em produtos diferentes como solados, canos, fibras têxteis, etc. E como a oferta de garrafas descartadas é maior que a demanda pelos produtos reciclados (que normalmente são duráveis) haverá sempre garrafas sobrando que acabam no lixo.
Mesmo
com os avanços rumo à utilização parcial de PET reciclado em garrafas, a
produção destas novas garrafas continua dependendo da exploração de matéria-prima
virgem, o petróleo. Nesta situação, portanto, o símbolo do ciclo fechado
estaria iludindo o consumidor, a ponto de alguns grupos ambientalistas,
especialmente nos EUA, estarem exigindo sua retirada das embalagens plásticas.
O
mito da embalagem ecológica
As embalagens descartáveis são apresentadas como modernas e práticas, uma tendência do mercado, inclusive internacional. Em programas de educação ambiental, escolas, por exemplo, promovem gincanas de arrecadação de latas de alumínio. Essas campanhas certamente recuperam muito material para reciclagem, mas também contribuem para aumentar substancialmente a venda de lata no país. (E quando os alunos da escola não têm recursos para comprar bebidas em lata de alumínio, ecologicamente juntam suas latinhas coletando em lixeiras, nas ruas e até ... roubando-as de catadores!)
O Programa Pró–Lata, que divulga "o potencial de reciclabilidade do aço e um selo de garantia de reciclagem" explicitamente admite ser um programa de Estímulo ao Consumo da Embalagem no Brasil. O consumidor, portanto, (des)orientado pela propaganda e induzido pelos símbolos, passa a comprar embalagens descartáveis achando que está, necessariamente, ajudando a preservar o ambiente.
Ora, se podemos chamar alguma embalagem de "ecológica" é a garrafa retornável – nosso “vasilhame”, “casco” ou garrafa com depósito – que não precisa ser destruída após cada uso, mas apenas devolvida inteira para lavagem e enchida novamente. As garrafas retornáveis dominavam o mercado internacional de bebidas até 1975. Embora em 1981 esta situação tenha se invertido nos Estados Unidos, onde a maioria das bebidas carbonatadas é vendida em garrafas one- way ou em latas, na Europa elas estão voltando a ganhar fatias maiores do mercado, inclusive de vinho e leite.
A
Dinamarca, por exemplo, proibiu em 1977 as embalagens descartáveis para
bebidas não-alcoólicas e, em 1981, para cerveja. Em Portugal, um decreto que
normatiza a gestão de embalagens e resíduos de embalagens prioriza a prevenção
de sua produção e o retorno de embalagens usadas.
Ora, considerando que reciclar qualquer material também consome água, energia e polui o ambiente, não é mais "ecológico" evitar a geração de lixo do que reciclá-lo?
Diretrizes
internacionais voltadas para a questão do lixo têm preconizado a minimização
de resíduos, através de uma seqüência de procedimentos didaticamente
apresentada como os 3 Rs: redução
(na fonte geradora), reutilização
direta dos produtos, e reciclagem
de materiais. A ordem dos Rs segue o princípio de que causa menor impacto
evitar a geração do lixo do que reciclar os materiais após seu descarte.
No Brasil, a discussão em torno da minimização de resíduos tomou impulso com a Agenda 21, documento que representa o acordo entre as nações para melhorar a qualidade de vida no planeta, elaborada durante a Conferência Rio-92. Seu capítulo sobre Manejo Ambientalmente Saudável dos Resíduos Sólidos afirma que a melhor maneira de combater o problema do lixo é modificar os modelos de consumo. E aponta: "a adoção de regulamentações nacionais e internacionais que objetivam implementar tecnologias limpas de produção, resgatar os resíduos na sua origem e eliminar as embalagens que não sejam biodegradáveis, reutilizáveis ou recicláveis, é um passo essencial para a criação de novas atitudes sociais e para prevenir os impactos negativos do consumismo ilimitado".
Devido às implicações político-econômicas e culturais que a mudança no padrão de consumo impõe ao atual modelo urbano-industrial, poucas iniciativas de redução – evitar a geração de lixo – tem sido efetivamente postas em prática. O enfrentamento da problemática dos resíduos tem se centrado no último R – a reciclagem. Por um lado, a reciclagem de materiais polui menos o ambiente e usa menos matérias-primas virgens, água, e energia. Mas, por outro, é perfeitamente compatível e beneficiária dos atuais níveis de desperdício que cometemos.
Enfim, os símbolos da reciclagem inseridos em produtos e embalagens, supostamente com o intuito de facilitar a identificação e separação de materiais/resíduos e, em última análise, diminuir o volume de lixo destinado a aterros e lixões, têm causado o efeito oposto. Para “alívio de consciência” do consumidor, e como apelo mercadológico para o produtor, os símbolos vêm incentivando a descartabilidade, legitimando o desperdício e aumentando a quantidade de lixo gerado nas cidades.
A
rotulagem de natureza ambiental pode, sim, ser uma informação útil. Mas
desde que acompanhada de um programa de orientação ao consumidor e de coleta
seletiva e recuperação de materiais. Programas estes de gestão socialmente
compartilhada de resíduos, que envolvam políticas públicas, a comunidade e,
especialmente, as indústrias, como as primeiras fontes geradoras de lixo.
Patricia Blauth
Publicado na revista aguaonline.com.br (número 34 – Ponto de Vista)