A Universidade de São Paulo é a maior instituição
de ensino superior do Brasil, responsável pela formação da maioria dos
docentes na pós-graduação e da produção científica do país. Possui seis campi
- São Paulo, Bauru, Piracicaba, Piraçununga, São Carlos e Ribeirão Preto -
com 44 unidades, dentre faculdades, institutos especializados e museus. Sua
população de 82 mil pessoas, incluindo funcionários, docentes e alunos,
produz muito ... lixo. Só no campus da capital
são cerca de 9 toneladas por dia!!
Considerando
as implicações desta geração de resíduos, as diretrizes da Agenda 21 e dos
programas de Qualidade Total, e reconhecendo a necessidade de uma política de
gestão ambiental para a própria Universidade, a CEPA - Comissão de Estudos de
Problemas Ambientais e a CECAE - Coordenadoria Executiva de Cooperação
Universitária e de Atividades Especiais, ligados à Reitoria, conceberam o
projeto USP RECICLA - da Pedagogia à
Tecnologia. A idéia surgiu no âmbito das discussões levantadas pela
Conferência Rio-92 com a intenção de mostrar que a Universidade poderia
dar o bom exemplo numa área, a ambiental, que sempre teve presença
forte em sua história de ensino e pesquisa. O USP RECICLA foi lançado para a
comunidade universitária em agosto de 1994, após quase um ano e meio de muita
troca de idéias e planejamento.
O USP
RECICLA pretende contribuir para desenvolver na comunidade universitária uma
mentalidade voltada para a preservação ambiental através da discussão em
torno dos resíduos sólidos gerados por essa comunidade. Mais especificamente,
busca:
§
racionalizar o
consumo de papel, dentre outros materiais,
§
diminuir a
quantidade de resíduos gerados nos campi
e
§
implantar
programas de coleta seletiva que possam servir como referência para instituições
similares.
Como um programa
de minimização de resíduos, o USP RECICLA se pauta no princípio dos 3 Rs:
redução no consumo e desperdício, reutilização e reciclagem
de materiais. Este princípio, difundido em vários países há algum tempo,
passou a ser mais abordado no Brasil em documentos e publicações pós Rio-92.
A sequência das etapas - da redução
para a reciclagem – obedece a uma
ordem que parte do menor para o maior impacto ambiental, inclusive baseada no
bom senso. Afinal, o que é mais “ecológico”: reciclar o lixo ou evitar sua
produção? Neste sentido, o programa vem questionando a apologia da reciclagem
como solução para os males do consumismo contemporâneo, alertando que este
processo, quando desvinculado das noções de redução e de reutilização,
pode servir para legitimar o desperdício.
De caráter essencialmente educativo, o USP RECICLA não
visa auferir renda com a comercialização de materiais recicláveis separados
para coleta seletiva, embora, evidentemente, a redução no desperdício possa
trazer economia de recursos para a instituição.
O USP RECICLA é desenvolvido e financiado inteiramente
pela Universidade de São Paulo, sob a supervisão da CECAE. O programa conta
com um coordenador acadêmico (sem remuneração), um coordenador executivo (com
dedicação de 30h/semana), dois educadores (70h/total) e dez bolsistas
(10h/semana/cada). Também participam do programa, voluntariamente, os funcionários,
docentes e alunos que compõem a Equipe de Coordenação e as Comissões Locais
de Avaliação de cada campus. Estes
grupos se reúnem periodicamente para discutir a evolução do USP RECICLA,
planejando e adequando as estratégias de implantação.
Inicialmente o USP RECICLA contou com o apoio do
Banespa, que cedeu R$ 10 mil ao projeto, das indústrias papeleiras Salusa, São
Carlos e Paulispel, que doaram caixas de papelão para o descarte de papéis, e
da Indústria de Papéis Ararense, com o empréstimo de uma prensa enfardadeira.
Internamente, o projeto tem a colaboração das
Prefeituras dos campi, que cuidam dos
aspectos operacionais da coleta seletiva, do Jornal da USP, e da COSEAS -
Coordenadoria de Assistência Social, com a cessão de dez bolsas/trabalho.
Gerenciando
os Resíduos nos Campi
De maneira geral o lixo dos campi da USP é coletado pelas prefeituras municipais das cidades
nas quais os campi estão localizados,
e destinado a aterros. A única exceção é Piraçununga, campus localizado numa fazenda, onde este é coletado pela
Prefeitura do campus e encaminhado a
uma vala no mesmo local.
Normalmente, as coletas municipais não incluem a remoção
de entulho e poda, cabendo às prefeituras dos campi contratar serviços de remoção e destinação destes
materiais.
A USP é isenta de taxa de remoção de lixo.
Quanto aos recicláveis, apenas Bauru e Ribeirão Preto mantém programas
municipais de coleta seletiva, aos quais o USP RECICLA está integrado. Nas
demais cidades, cada campus separa,
coleta e encaminha seus recicláveis, para doação ou venda (Tabela 1).
Os resíduos de serviço de saúde, quando separados para coleta
especial, também contratada, têm como destino a incineração ou a disposição
em valas sépticas.
Tabela 1 - Coleta (executor) e destinação de resíduos
em cada campus
|
campus |
coleta |
destinação |
|
|
|
|
lixo |
recicláveis* |
|
Bauru |
PM |
aterro |
central triagem |
|
Piracicaba |
PM |
aterro |
- |
|
campus |
- |
doação |
|
|
Piraçununga |
campus |
vala |
sucateiro |
|
Ribeirão Preto |
PM |
aterro |
central triagem |
|
São Carlos |
PM |
aterro |
- |
|
campus |
- |
sucateiro |
|
|
São Paulo |
PM campus |
usina - |
central triagem** indústria |
*
Apenas papel, no caso de Piracicaba, São Carlos e São Paulo.
**
Os recicláveis coletados pela Prefeitura Municipal de São Paulo, e
encaminhados à central de triagem municipal, são apenas os oriundos de um PEV
(Posto de Entrega Voluntária) localizado no campus.
Educando...
A principal meta do USP RECICLA é contribuir para o desenvolvimento de
uma nova mentalidade ambiental, colocando em discussão certos hábitos que
implicam o desperdício de recursos naturais e a contínua degradação da
qualidade do meio. Considerando que a mudança destes hábitos depende não só
da aquisição de informações e de habilidades - aspectos cognitivos da
aprendizagem - mas também do fortalecimento de vínculos afetivos e de valores,
os procedimentos educativos enfocam a sensibilização e mobilização de seu público-alvo.
Ao entendermos a geração de resíduos não como atividade isolada, mas
como consequência do estilo de vida típico da sociedade urbano-industrial,
amplia-se a necessidade de um trabalho educativo. Ainda muito além da discussão
sobre as alternativas para a destinação do lixo, o trabalho educativo passa a
incluir um debate sobre o consumo, o desperdício, a cidadania. Por outro lado,
o trabalho também contempla questões de ordem sanitária, como o
acondicionamento de resíduos e a saúde pública.
As
atividades desenvolvidas são orientadas por uma abordagem humanista em educação,
tendo como princípio que as pessoas têm grande potencial para auto-realização
e mudança. Nesta abordagem, o esforço centra-se em facilitar estas mudanças
mediante estímulos adequados que, com o tempo, se transformam em locos internos
de motivação. Diferindo essencialmente de uma campanha, cujos efeitos têm curta duração (normalmente a duração
da própria campanha), os novos comportamentos adotados tendem a se manter mesmo
após o período de implantação do projeto.
Convém ressaltar que, como o trabalho busca fortalecer
o espírito de cidadania, de solidariedade e de respeito aos bens da
coletividade, as atividades educativas não se valem de “incentivos” como a
distribuição de brindes ou prêmios. (Ou será que podemos barganhar
sentimentos e comprar das pessoas carinho e respeito pelo ambiente em troca de
mudas......?)
As estratégias empregadas pretendem permitir a efetiva e crescente
participação da comunidade universitária na construção do programa.
Sua complexidade e riqueza são reveladas gradativamente, à medida que experiências
vão sendo implementadas nas Unidades
(termo genérico que abrange faculdades, museus ou institutos) que compõem os campi.
Como o programa é institucional, o envolvimento das unidades se dá
primeiramente com o encaminhamento de um ofício da Reitoiria da Universidade a
cada Diretor de Unidade. Em seguida, técnicos do USP Recicla reúnem-se com
esta Direção, expondo as diretrizes do programa a ser implantado.
São realizados, então, diagnósticos dos resíduos produzidos nas
Unidades, nos quais amostras diárias de lixo são estudadas com objetivo de:
1) aproximar os técnicos da realidade “de
descarte” dos usuários daquela Unidade; conhecendo o lixo
"desvenda-se" parte dos hábitos de consumo
dos geradores, o desperdício, a quantidade (peso e volume) e qualidade dos
materiais descartados, dados que enriquecem a discussão a ser desenvolvida
posteriormente com estes geradores;
2) identificar o potencial para a minimização dos resíduos
(redução, reutilização e reciclagem), que permite elencar medidas a serem
apresentadas e transformadas em ações;
3) oferecer um parâmetro para a avaliação do
trabalho educativo; como novos diagnósticos são feitos periodicamente após a
implantação do programa nas unidades, obtém-se dados da evolução da geração
de lixo que, por sua vez, reflete a evolução das mudanças comportamentais
almejadas.
A etapa seguinte é a realização, também com a apoio da Direção da
Unidade, de encontros educativos com a presença do maior número possível de
"geradores de resíduos": alunos, estagiários, docentes e demais
funcionários, incluindo administrativos, da limpeza, manutenção, segurança,
consultores e prestadores de serviços (copiadoras, lanchonetes, etc.). Para
facilitar a participação de alunos, normalmente os encontros são feitos
durante aulas cedidas por professores mais “simpatizantes”. Em linhas
gerais, o encontro difere de uma palestra
pois permite não só a apresentação e revisão de vários conceitos, como
também a troca de experiências e opiniões. Cria-se um diálogo em que os
participantes podem revelar suas posturas perante o assunto. Ainda que o USP
RECICLA não faça um levantamento do conhecimento prévio do seu público-alvo
com relação ao tema antes dos encontros educativos, durante o encontro se
estimula que conceitos e preconceitos surjam na discussão.
O encontro educativo também é o principal momento de estímulo à
participação no programa e, inclusive, de adesão de voluntários e
recrutamento de coordenadores "locais".
Como material didático o encontro educativo utiliza uma coleção de
diapositivos (slides). Este recurso audiovisual é extremamente versátil pois a
coleção pode ser ampliada, reduzida, ou "invertida" de acordo com o
público alvo. Ao contrário de um filme de vídeo, os slides, sem texto
fechado, estimulam mais a participação da "platéia", seja ela acadêmica
ou leiga, adulta ou infantil. A apresentação enfoca, dentre outros pontos, a
destinação e acondicionamento do lixo, a origem dos materiais descartados,
decomposição, poluição, impacto ambiental, consumo e consumismo, desperdício,
compostagem, etc. Nos encontros são sempre apresentadas, inclusive pelos
participantes, medidas concretas para a redução, reutilização e separação
de resíduos para posterior reciclagem. É neste momento que cada participante
recebe uma caixa para o descarte de recicláveis.
O número de encontros educativos realizados em cada Unidade depende de
sua "comunidade" (tamanho, receptividade, formas de organização). São
criadas condições, contudo, para que todos os interessados tenham a
oportunidade de participar de um encontro, como a dispensa de alunos, docentes e
demais funcionários durante o expediente. Numa faculdade com mil pessoas, por
exemplo, o USP RECICLA pode realizar 20 encontros, com turmas de cinqüenta
pessoas, dependendo das condições oferecidas.
Após os encontros, é feito um acompanhamento
intensivo da adesão da Unidade ao programa, com visitas às salas de aulas,
escritórios, etc. Nestas visitas, denominadas pentes-finos,
são observados se:
§
as caixas para
descarte de recicláveis foram montadas pelos usuários (que as receberam
desmontadas durante os encontros) e se estão sendo usadas corretamente;
§
a coleta
seletiva vem sendo feita de modo adequado;
§
surgiram novas
idéias e medidas de redução de desperdício; e
§
há pessoas que
não participaram de nenhum dos encontros educativos oferecidos; neste caso são
realizados, periodicamente, novos encontros.
Com o intuito de atingir os alunos ingressantes na Universidade, são
agendados encontros em cada Unidade, no início do ano letivo, geralmente
aproveitando-se as semanas “culturais” dos calouros.
Para divulgar a evolução do Programa são utilizados veículos de
comunicação como o Jornal da USP, a Rádio USP, informativos internos e painéis
fotográficos nas Unidades, e placas externas nos campi.
Como o Programa é bastante aberto, os desdobramentos que podem ocorrer são
infinitos, dentro do universo cultural da USP, normalmente por solicitação de
pessoas interessadas de diversas Unidades. O USP RECICLA fornece dados para a
elaboração de teses e monografias, permitindo a consulta de seu arquivo à
comunidade em geral, organiza ou auxilia no planejamento de palestras e debates,
produz folhetos educativos e busca se inserir no calendário de eventos da
Universidade.
O USP RECICLA, embora voltado principalmente para a educação/mobilização
da comunidade universitária, oferece cursos de reciclagem artesanal de papel e
oficinas de capacitação de educadores “ambientais” interessados na criação
de programas de minimização de resíduos.
Separando,
Coletando e Destinando...
Onde não há coleta seletiva municipal (Piracicaba, Piraçununga, São Carlos e São Paulo)
As caixas distribuídas nos encontros educativos (ou
posteriormente, nos pentes-finos) são
dispostas pelos usuários em suas salas, ao lado dos cestos para lixo, e servem
para o descarte apenas de papéis (todos os tipos - impressos, formulários,
jornais, revistas, etc. - exceto carbono, plastificados, parafinados, caixas
tipo longa vida e adesivos). Estes papéis
passam a ser coletados pela equipe de limpeza em sacos de ráfia (retornáveis),
enquanto o lixo (demais materiais) continua sendo coletado em sacos pretos. As
caixas permanecem nas salas.
Os sacos com papéis, bem como caixas e papelão, são
retirados semanalmente de cada Unidade, de pontos pré-determinados, pelas
prefeituras dos campi, armazenados em
pequenos galpões e encaminhados à indústria recicladora ou a sucateiros.
Apenas no campus de São Paulo os papéis
são prensados e enfardados.
Optou-se por coletar seletivamente apenas o papel, pelo
menos até o momento, porque estimativas indicam que o papel representa 70% do
peso total do lixo nos diversos campi
e devido à limitação na infra-estrutura da USP para recolher, organizar e
armazenar os demais recicláveis.
Onde há coleta seletiva municipal (Bauru e Ribeirão Preto)
As caixas distribuídas, além de papéis, também
recebem outros recicláveis - plásticos, vidros e metais. Estes materiais são
então coletados seletivamente pelas equipes de limpeza e centralizados em
pontos para coleta municipal, donde são encaminhados para as centrais de triagem municipais. Em Bauru a coleta é efetuada sempre que o local de armazenamento fica
saturado - em média uma vez ao mês. Em Ribeirão Preto a coleta é semanal.
O uso de sacos de ráfia (retornáveis), com o intuito
de diminuir o consumo de sacos descartáveis, é inviável nestes casos devido
à dificuldade de as Prefeituras Municipais devolverem os sacos aos campi.
(Tabela 2)
Tabela 2 - Esquema de coleta seletiva em cada
campus
|
Campus |
Frequência (vezes
por semana) |
Responsável |
Transporte (no
campus) |
Destino |
kg/mês |
Valor (R$/kg) |
|
|
Bauru |
diária |
campus |
carrinho de mão |
PM |
2300 |
- |
|
|
Piracicaba |
uma |
campus |
camionete |
doação |
1200 |
- |
|
|
Piraçununga |
em reavaliação |
||||||
|
Ribeirão Preto |
uma uma |
PM campus |
- trator c/ carreta |
PM |
3500 |
- |
|
|
São Carlos |
uma |
cada Unidade |
diversos |
sucateiro |
500 |
0,04 |
|
|
São Paulo |
uma |
campus |
caminhão baú |
indústria |
13.000 |
0,18 |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
As
dificuldades...
Interferir na rotina das pessoas, de modo permanente,
não é fácil. Imaginem o estímulo necessário para tirar as pessoas de suas
salas de trabalho, aulas, pesquisas, etc. para fazê-las conversar, durante
cerca de 90 minutos, sobre...lixo!? Como atrair para a discussão, no atribulado
cotidiano acadêmico, professores que acreditam já saber “tudo sobre o assunto”? Apesar de todos os geradores de lixo
serem convocados para os encontros educativos, a participação às vezes é
pequena. Esta dificuldade é amenizada quando se consegue encaixar uma apresentação
do USP RECICLA na pauta de reuniões já agendadas (de Congregações,
Conselhos, etc.). Melhor ainda é quando a Direção da Unidade assume o
programa para si, fortalecendo seus próprios mecanismos internos de motivação.
Na Escola de Educação Física e Esporte, no campus
de São Paulo, por exemplo, o “bom tratamento do lixo” integra o Plano
Diretor da Unidade.
Reimplantar o programa é mais difícil do que implantá-lo. No campus de Piracicaba, por exemplo, devido a uma iniciativa anterior
ao USP RECICLA que foi interrompida, norteada por uma filosofia educacional “à
base de troca” - as pessoas separavam papéis muitas vezes pelo estímulo único
de ganharem papel novo de volta - houve certa resistência à nova proposta.
Situação semelhante ocorre quando a experiência abortada é a do programa
municipal (como em São Paulo), que as pessoas confundem com o programa interno
de coleta seletiva proposto. O USP RECICLA tem, muitas vezes, de lidar com a
frustração das pessoas e de devolver a credibilidade à “idéia” da coleta
seletiva.
Estes têm sido o principal desafio educativo do USP RECICLA.
Mas o inverso também ocorre. Diversas Unidades ou grupos organizados na
USP (CIPAs, Centros Acadêmicos, etc.), independentemente de qualquer comunicado
ou convocação “oficial” sobre a iminente implantação do USP RECICLA na
sua Unidade, pedem a realização de encontros educativos ou, ainda, a criação
do sistema de coleta seletiva. Este tipo de solicitação, ainda que não possa
ser atendido prontamente, gera grande satisfação à coordenação do programa.
Esta manifestação espontânea tem, inclusive, influenciado o critério para a
escolha das Unidades a serem abrangidas: de aleatório para “atendendo a
demanda”.
Sob o aspecto operacional, outra dificuldade do USP RECICLA é a
constante renovação nas equipes de limpeza das Unidades, normalmente empresas
contratadas. Esta reciclagem dos próprios funcionários muitas vezes quebra a
fluidez do sistema interno de coleta seletiva, pois a transmissão das orientações
sobre o programa, pelo supervisor aos novos contratados, ainda não é feita de
maneira automática. Propõe-se que os novos editais de licitação de serviços,
bem como os contratos a serem firmados com as limpadoras, já contenham cláusulas
que obriguem que a coleta seja seletiva.
O USP RECICLA ainda lida com uma série de problemas, aparentemente
menores, de ordem administrativa, política, econômica e de capacitação técnica.
Articular as forças existentes na Universidade, levantar e sistematizar a produção
científica e os projetos afins já em andamento, e encontrar profissionais com
o perfil necessário à tarefa de mobilizar a comunidade universitária a rever
seu comportamento “ambiental”- dificuldades vividas, analogamente, pelas
Prefeituras Municipais, com suas diversas Secretarias - são atividades que
demandam muita persistência e criatividade.
Conseguindo...
Apesar das dificuldades, inerentes
a um programa com esta amplitude e profundidade, o USP
RECICLA vem alcançando resultados bastante positivos.
Graças à mudança nos hábitos de alunos, funcionários e docentes, a
produção diária de lixo caiu pelo menos 50%, em peso, nas Unidades
abrangidas. No prédio da Reitoria, por exemplo, no campus da capital, com cerca
de seiscentos funcionários, o diagnóstico inicial revelou uma geração média
de 150 kg/dia, ao passo que, com a implantação do USP RECICLA, esta quantidade
caiu para 80 kg/dia
.
Como a coleta seletiva é apenas uma das atividades do programa de
minimização de resíduos, pois o USP RECICLA busca, em primeiro lugar,
diminuir o desperdício, são resultados do programa uma série de mudanças
envolvendo a redução na própria produção de lixo.
Neste sentido verificou-se, numa ou noutra Unidade:
1.
a substituição espontânea de copos plásticos
descartáveis - o consumo médio era de 10 unidades/pessoa/dia! - por copos e xícaras
duráveis;
2.
a adoção dos mesmos utensílios de forma
institucional, isto é, a Direção de algumas Unidades confeccionou xícaras
com seus logotipos, distribuindo-as a seus funcionários;
3.
a suspensão na compra de blocos para rascunho pelo
Almoxarifado Central;
4.
a devolução para reuso, ao fornecedor, de cartuchos
de toner de copiadoras e impressoras;
5.
a substituição de bebedouros com água mineral por
bebedouros de pressão, que dispensam o uso de copos (descartáveis);
6.
a coleta diferenciada e destinação (para reciclagem)
de lâmpadas fluorescentes ; e
7.
a articulação com o projeto de suíno-piscicultura (campus
de Piraçununga, onde funciona o curso de Zootecnia); os resíduos orgânicos do
restaurante (cerca de 80kg/dia) são encaminhados para a alimentação de porcos
criados em um estrado, sobre um reservatório de água, cujas fezes servem de
enriquecimento nutricional a peixes.
Merecem destaque as iniciativas de compostagem, alternativa para o
tratamento de resíduos orgânicos discutida e incentivada durante os encontros
educativos.
Atualmente a compostagem é desenvolvida em três Unidades - Creche
Oeste, Hospital de Pesquisa e Reabilitação de Lesões Lábio Palatais e no
Centro de Recursos Hídricos e de Ecologia Aplicada - experiências descritas a
seguir - cujo composto foi analisado e considerado um excelente condicionador do
solo pelo Departamento de Química da ESALQ (campus
de Piracicaba).
A Creche Oeste (campus de São Paulo) faz sua compostagem misturando as sobras de
refeições com grama, folhas, e a serragem descartada pela Prefeitura do Campus.
Participam do trabalho a equipe de funcionários e as 110 crianças que
frequentam a Creche. O composto é peneirado e ensacado pelas próprias crianças
(que reutilizam sacos de leite), e utilizado na horta da Creche, doado às famílias
e vendido a interessados em geral. Os aspectos pedagógicos deste trabalho tem
sido amplamente divulgados, inclusive em programas educativos como o “X-Tudo”,
da TV Cultura. A experiência bem sucedida fez com que algumas famílias
montassem composteiras caseiras, uma vez que o preconceito em relação ao lixo
orgânico foi bastante superado.
No Hospital
de Pesquisa e Reabilitação de Lesões Lábio Palatais (campus de Bauru) os resíduos orgânicos do restaurante - cerca de
50 kg/dia - juntamente com poda e serragem, são encaminhados para a composteira
no próprio campus. O composto é ensacado e doado aos diversos setores do campus.
Já no Centro de Recursos Hídricos e de Ecologia Aplicada-CRHEA
(campus de São Carlos), foi montada
uma composteira que recebe os resíduos orgânicos do restaurante (cerca de 25
kg/dia) e da poda do jardim. Esta composteira facilitou muito o tratamento de
parte dos resíduos, considerando, especialmente, que o CRHEA não era sequer
atendido pela coleta de lixo municipal.
Embora o público-alvo do USP RECICLA seja a comunidade universitária,
muitas têm sido as consultas por parte de escolas, empresas, administradores
municipais, fundações e organizações não-governamentais. O
programa também foi tema de monografias e dissertações acadêmicas e é
citado no livro “O que é lixo?”
(coleção Primeiros Passos, Editora Brasiliense).
Desembolsando e Recebendo
Da apresentação dos objetivos do USP RECICLA percebe-se que o retorno
financeiro, que pode ser uma das conseqüências do programa, não figura em
suas preocupações. A Universidade tem investido na educação (ou reeducação)
de sua comunidade, visando a contribuir para a manutenção da qualidade do meio
e da vida.
Convém lembrar, porém, que esta manutenção, ou a diminuição de
certos impactos ambientais, resultantes de mudanças de atitudes, também tem valor econômico, embora nem sempre de fácil mensuração.
O USP RECICLA ainda não avaliou, por exemplo, quanto a Universidade pode estar
economizando com a limpeza de áreas externas dos campi se sua comunidade está mais educada (ou sensibilizada) e
“sujando” menos. E ainda: quanto a USP economiza para cada uma das
prefeitura municipais, ao diminuir o volume de lixo a ser aterrado?
Os benefícios de um programa de coleta seletiva, no contexto de um
programa de minimização de resíduos, indubitavelmente transcendem a economia
local (da instituição que o desenvolve), atingindo as esferas municipal,
estadual, federal e - por que não? - planetária. Afinal, a idéia não é
“pensar globalmente, agir localmente”?
Ainda assim, para ilustrar como o programa, que não gera lucro pela
“reciclagem” mas, sim, evita gastos pela redução no desperdício, é
apresentada uma análise simplificada[1] dos custos e benefícios.
O USP Recicla gasta...
|
...com |
R$/mês |
|
Coordenação/educação - 1 Coordenador executivo - 2 Educadores (70 h/semana) - 10 Bolsistas (10 h/semana) - 3 Bolsistas
(ESALQ) - Comissões nos
campi - 1 Coordenador acadêmico |
- 1.000,00 2.300,00 1.200,00 336,00 s/ remuneração s/ remuneração |
|
sub-total |
4.836,00 |
|
Coleta seletiva * em: - Bauru - Piracicaba - Piraçununga - Ribeirão Preto - São Carlos - São Paulo |
-
224,00** 461,00 24,00 223,00 116,00 1.616,00 |
|
sub-total |
2.664,00 |
|
total |
7.500,00 |
·
inclui as despesas com caixas, sacos de ráfia, arame para fardos,
motoristas, coletores/triadores, manutenção de veículos e combustível,
e horas de trabalho nas composteiras
**
Na realidade estes não são gastaos novos da Universidade, mas indicam
apenas o “valor” do trabalho, já que foi otimizada a infra-estrutura
(recursos humanos e maquinário) pré-existente..
E gera receitas com...
|
vendas |
R$/mês |
|
de papel - em São Carlos - em São Paulo |
30,00 1.580,00 |
|
de composto orgânico na Creche Oeste/SP |
eventual |
|
total |
1.610,00 |
Dentro do programa de minimização de resíduos, que custa à Universidade R$ 7500,00/mês, a coleta seletiva nos campi custa apenas R$ 1054,00/mês (despesas com a coleta menos as receitas). Se considerarmos a recuperação média de 20,5 toneladas de recicláveis por mês (Tabela 2), o custo da tonelada coletada - neste caso não há nenhum rejeito - é de apenas R$ 51,40.
Por outro lado, como o trabalho envolve a discussão em torno do desperdício,
as mudanças comportamentais observadas implicam em gastos evitados. É aí que
se dá a real economia.
Um exemplo foi a adoção de copos individuais no Coral da USP: o consumo
de copos descartáveis caiu de 8000 unidades/mês para 1500, “gerando” um
gasto evitado de R$ 43,00/mês.
No Instituto de Física, a substituição dos bebedouros de garrafão
(com água mineral), por bebedouros de pressão, que dispensam o uso de copos,
prevê grande economia de recursos após o investimento inicial, considerando,
inclusive, que a água da rede custa 15 vezes menos que a água mineral.
O USP RECICLA está aprofundando esta análise, avaliando as experiências
de redução no desperdício que continuam surgindo.
E o que
está por vir...
O USP RECICLA vem recebendo crescente atenção dentro
da própria Universidade. Apontado como uma das melhores experiências
associadas ao programa de Qualidade e Produtividade, o USP RECICLA obteve
recentemente o apoio necessário à construção de uma nova Central de Recicláveis
no campus de São Paulo. Neste local o
USP RECICLA poderá aperfeiçoar a triagem dos materiais coletados
seletivamente, bem como a avaliação do grau (ainda existente) de desperdício,
e receber visitação. A mesma obra está prevista para o campus
de Piracicaba. Estes galpões melhorarão a infra-estrutura necessária à
ampliação “geográfica” da coleta seletiva nestes dois campi.
Estreitando ainda mais seus laços com as prefeituras dos campi, o USP
Recicla planeja contribuir para a elaboração de um Plano Diretor de Resíduos
para cada campus, que contemple não só o acondicionamento, coleta e destinação
dos recicláveis como também o adequado tratamento dos demais resíduos: orgânicos,
perigosos, entulho, etc.
As perspectivas incluem novas parcerias internas que permitam atender à
crescente demanda da comunidade em geral, através da realização de cursos,
mini-cursos e oficinas para diferentes públicos: empresas, entidades, escolas,
etc.
[1] Não foram incluídas as despesas com água, luz e telefone, pois o USP Recicla não tem sede própria nos campi, funcionando em prédios que abrigam várias outras atividades
Patricia
R. Blauth & Patricia C. S. Leme
Artigo
publicado originalmente no livro Coleta
Seletiva de Lixo – Experiências Brasileiras, n°2. UFF/CIRS/Ecomarapendi,
Rio de Janeiro, 1998.